A rã e o escorpião
O fogo crepita feroz e avassalador. Na margem do largo rio que permeia a floresta, encontram-se dois inimigos figadais: a rã e o escorpião.
Lépida e faceira, a rã prepara-se para o salto nas águas salvadoras. O escorpião, que não sabe nadar, aterroriza-se ante a morte certa, estorricado pelas chamas ou impiedosamente tragado pelas águas revoltas.
Arguto e num esforço derradeiro, implora o escorpião:
— Bela rã, leva-me nas tuas costas na travessia do rio!
— Não confio em ti! Teu ferrão é inclemente e mortal — responde a rã.
— Jamais tamanha ingratidão. Ademais, se eu te picar, é morte certa para nós dois.
— É verdade — pensou candidamente o bondoso batráquio. Então suba!
E lá se foram irmanados e felizes. No entanto, no meio da travessia, a rã é atingida no dorso por uma impiedosa ferroada. Entremeando dor e revolta, trava o derradeiro diálogo:
— Quanta maldade! — exclama a rã, contorcendo-se. Não vês que morreremos os dois?
— Sim, responde o escorpião, mas essa é a minha natureza!
Adoro fábulas!
Não gosto de ser vítima!
Mas neste caso, sou a rã, sim!
Aliás, sempre fui, diversas vezes na vida....
Parece que nós, rãs, temos memória curta!
A cada ferroada mortal, deixamos de reconhecer os escorpiões que nos pedem carona ou uma chance só que seja.
Para mostrarem que são, de verdade, só é preciso a ocasião certa
E como a hora certa sempre chega para os escorpiões da nossa vida!
E como sofremos quando eles fazem valer a natureza!
E sofremos porque não conseguimos ser como eles....
Vivo me perguntado: até quanto terei fôlego para sobreviver? Até quando vou manter-me rã na contramão da selva que, às vezes, somos obrigados a enfrentar?
Por que nascemos sapo? Quem escolheu isso para nós? E quem disse que é melhor sê-lo?
Só não iremos confudir os amigos verdes com o espelho do fracasso.
E nem vamos derramar lágrimas eternas porque não podemos ser convidados para a festa no céu!
Mas também não venham me dizer que, se pudessem escolher, abririam mão das armas do escorpião...
Se perguntarem para mim, o que direi?
Que não nascí uma rã.
Tornei-me uma.
Por acreditar no coração e na alma do ser humano.
Este (o de acreditar) é um caminho sem volta.
E sempre estarei percorrendo essa estrada sob a mira do veneno.
Eis meu jogo! Eis minha sina!

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